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18/06/2018 16h32min

Zélia Duncan fala sobre identidade e carreira: “Foi tudo por um triz”

Cantora foi entrevistada pela filósofa Márcia Tiburi no evento Diálogos Contemporâneos, do Senac Lapa Scipião.

Imagens em sequência animada da conversa entre a filósofa Marcia Tiburi e a cantora Zélia Duncan

Diálogos Contemporâneos

Instigar a sensibilidade e descobrir a própria identidade a partir do encontro com alguém inspirador. Provocar isso no público é a proposta do projeto Diálogos Contemporâneos, realizado pelo Senac Lapa Scipião e conduzido pela filósofa e escritora Marcia Tiburi.

Com a convidada da última edição, essa foi uma tarefa simples. A cantora, escritora, compositora e atriz Zélia Duncan chegou ao evento, realizado em 3 de maio, disposta a compartilhar suas percepções e histórias.

À vontade no palco, Zélia falou sobre família, machismo, a paixão pela palavra e a busca incessante para ser reconhecida como cantora. Tudo isso, em uma conversa sincera e bem-humorada. “Foi uma delícia. Falamos coisas que nunca tínhamos falado”, comenta a cantora.

Para começar, Marcia trouxe considerações filosóficas para questionar a convidada: “Como aconteceu para você se tornar a pessoa que você é?”

Surpreendida, Zélia brincou: “A gente tem uma semana para ficar aqui?” E completou: “Não fico pensando em quem eu sou assim tão explicitamente. Acho que é tudo por um triz. É um caminho que você escolhe, é um lugar para onde você olha que muda a sua vida todo dia”.

E disse que é preciso achar o impulso de fazer: “Gosto de saber que todo dia você escolhe a sua vida. Isso te dá uma responsabilidade enorme, mas se você não tem responsabilidade sobre sua vida, vai ter com o quê? É rico não se deixar ir como toco na enchente”.

O peso dos exemplos
Zélia acredita que, primeiro, é preciso ver alguém fazendo para querer fazer. Por isso, destacou a importância dos bons exemplos. No caso dela, a inspiração estava em casa: a mãe. “Ela tem uma linda voz, cantava muito pela casa e em serestas. E tinha um caderno com letras de músicas, fazia eu e minha irmã cantarmos. A gente errava a letra e ela fazia gestos de irritação muito engraçados. Então, a primeira via foi ela”, afirma.

A cantora lembrou que a mãe e o avô recitavam poemas, alguns até impróprios para crianças, como Augusto dos Anjos e Olavo Bilac. “Brinco que fiquei mais jovem depois de velha. Quando fiz 18 anos, tinha repertório que as meninas da minha idade não tinham”, diz.

O quarto: machismo e sexualidade
Além da mãe, Zélia dividia a casa com dois irmãos e uma irmã. Aos 12 anos, após a separação dos pais, o machismo se instaurou entre eles. O fato mais marcante foi a distribuição dos três quartos da casa: as três mulheres dividiam um dos quartos enquanto cada irmão tinha o seu.

“Anos a fio a minha casa foi assim. Os meninos achando que isso era normal e nós naquela posição imbecil de achar que não podia criar problema para a mãe. Havia até uma certa sororidade, solidariedade feminina. Mas a minha mãe, que é uma mulher incrível, não percebeu a violência que estava fazendo e que estava sofrendo fazendo isso”, diz.

Zélia concorda que foi passiva, mas diz que gosta da história da família porque todos se transformaram. E ainda fez uma revelação. “Nessa época do quarto descobri que era gay. É uma coisa que não falo explicitamente, mas queria dizer aqui. Se descobrirmos uma coisa que não é padrão, que a gente consiga sair não só armário, mas do quarto também”, aconselha.

Nesse período, começou a aprender violão, descobriu a própria voz e a primeira reação foi de horror. “Demorei um pouco até perceber que a minha voz não era motivo de vergonha”, diz.

Época de colégio
A maior parte da vida escolar de Zélia foi no colégio Marista, de Brasília. Apesar de dizer que era péssima aluna, diz que desenvolveu interesses e talentos por lá. Tocava caixa na banda do colégio, era do time de basquete, fazia teatro e era sempre eleita a representante da turma.

A paixão pela música levou Zélia a repetir de ano duas vezes. “Já cantava e não conseguia me fixar. Depois virei boa aluna, mas me formei em Letras só depois dos 40 anos”, conta. Outra curiosidade é que foi da seleção de basquete de Brasília. “Queria jogar com a Paula, meu ídolo até hoje. Uma vez, estava num show e disseram que ela estava lá, quase morri”, brinca.

Ela destaca que o colégio teve um papel importante nessa trajetória. “A escola não era inóspita, pelo contrário, era o lugar para mim porque tinha o esporte, a banda e o teatro. Oferecia saídas. Eu comecei a tocar lá e tive respaldo”, enfatiza.

Caminho suado
Aos 18 anos, foi para o Rio de Janeiro perseguir o sonho. Cantava na noite, gravava jingles, fazia backing vocal para outros cantores e tudo o que aparecia. Zélia não conhecia a cidade, mas pegava um mapinha e caía no mundo. “Um dia estava indo encontrar a banda, dormi no ônibus e acordei porque o cara disse: Ponto final! Eu lembro muito dessa sensação. E olha que já estou com 53 anos. Olhei em volta. O ônibus vazio em um lugar totalmente remoto. Ali eu podia, realmente, ter dançado, mas deu certo”, diz aliviada.

Decepcionada com a carreira até trabalhou no Tribunal Superior do Trabalho, mesmo sendo cantora. “Me arranjaram emprego pela angústia de ter uma artista em casa. Poderia estar aposentada hoje, mas tive bom senso de sair quando me deram uma promoção”, brinca.

Veia pop
A definição de identidade veio desde o primeiro disco, chamado Outra Luz. “Era a época em que a Marisa Monte tinha aparecido e cada gravadora queria a sua. Ela é incrível, mas é única. Comecei a me fundar dizendo não e me ferrando porque depois desse disco foram anos para reerguer meu cirquinho e continuar até desaguar em algo que fosse um pouco maior”, diz.

O fato de ser compositora ajudou. “Quando comecei só pensava em cantar muito bem. Cada migalha que tinha dava para a professora de canto. Mas, quando gravei o primeiro disco fui como autora. O que fez as pessoas me ouvirem foram as minhas músicas”, conta.

E foi justamente uma amiga da escola de música que apresentou Zélia a Christian Oyens, grande parceiro de composições fundamentais da carreira da cantora, entre elas Catedral, Enquanto Durmo, Tempestade e Não Vá Ainda. “Christian não tem medo do refrão. Descobri com ele a alegria da música pop, que te dá uma catarse diferente da MPB. Ele trouxe um lado mais suave e fluido que era meu também e eu não sabia”, afirma.

Zélia conta que colocar letra em música envolve matemática ao mesmo tempo em que precisa dizer algo que valha a pena ser cantado. A técnica deu certo e surpreendeu no primeiro sucesso. “Não esperava que Catedral fosse estourar num disco que tinha Nos Lençóis Desse Reggae e tanta coisa. Você não sabe direito de onde vem. Por isso, quando penso nessa fase da vida, a imagem que tenho é que você está cego e joga umas sementes para trás”, enfatiza.

Roda da vida
Com a conquista do sonho, veio o assédio dos fãs e um longo aprendizado para saber lidar com isso. “Sou muito grave, não só na voz. Achava que se uma pessoa parava para me ouvir, eu tinha que ser escrava dela. Hoje, entendo que é uma via de mão-dupla”.

A busca por aprender, inclusive, é constante em Zélia. “Estou sempre rastreando coisas que me desafiam, me ensinam e me irmanam. Preciso me preencher porque nem sempre estou em um palco maquiada e todo mundo me aplaudindo”, acredita.

Nesta hora, cita um trecho da música de Alice Ruiz: “Atenção, a vida contém cenas explícitas de tédio nos intervalos da emoção”. E emenda: “A vida é esse intervalo. Me preocupo em estar bem quando a roda da vida está lá embaixo. Se você trabalhar, ela volta a subir, mas tem que ter paciência e amor próprio para esperar. É aí que estudar entra na minha vida”, reforça.

Mistureba
Além da música, Zélia experimenta outras artes: trabalhou como colunista do jornal O Globo e atriz de teatro. “É uma fase mistureba total, mas em tudo o que faço tem paixão pela palavra”, diz.

Consultando apenas a memória, Zélia finaliza a conversa recitando a poesia Inania Verba, de Olavo Bilac (veja no vídeo), texto que declamou ao público em seu primeiro show, aos 16 anos.

Diálogos Contemporâneos
O método é não ter roteiro, apostar na riqueza do espontâneo para criar um bate-papo que ajude a melhorar a sensibilidade das pessoas e a entender como uma pessoa se constrói. É assim que Marcia Tiburi define o projeto Diálogos Contemporâneos, do Senac Lapa Scipião.

Estar em uma instituição de educação faz todo sentido. “O que as escolas podem proporcionar aos jovens? Que eles se descubram. As pessoas que a gente traz são exemplos disso, pois nos ajudam a pensar na gente, enquanto ouvimos as histórias delas”, conclui a filósofa.

O evento foi registrado pelos alunos do Radialista - operação de câmera da unidade.

Nas edições anteriores, o projeto contou com a participação dos artistas Wagner Moura, Pitty e Karina Buhr.

Conheça também os
cursos da área de comunicação e artes do Senac Lapa Scipião.

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Tags: Comunicação e Artes, Diálogos Contemporâneos, Marcia Tiburi, Senac lapa Scipião, Zélia Duncan, filosofia, identidade


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