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29/11/2019 17h10min

Conhecimento territorial da periferia foi foco do Webinar Senac

Especialistas da área social debatem sobre práticas do profissional desse segmento.

Foto de dois professores sentados em poltrona em estúdio de gravação e fundo televisão com logo do Senac São Paulo.

Pesquisadores responderam dúvidas de profissionais da área social sobre como incluir esse conhecimento no dia a dia

Conhecer as potencialidades do local, escutar as pessoas que vivem e convivem nos espaços periféricos e como o profissional social pode contribuir com esse movimento foram os principais pontos apresentados no Webinar Senac: Projetos Sociais nos Territórios: inovações e impactos, ocorrido em 8 de novembro.

A ideia do encontro on-line foi abordar as ações sociais nos territórios, inovações, seus impactos e resultados. Partindo do princípio de que as soluções estão no território, enquanto espaço de geração de conhecimento e aprendizagem, o trabalhador social encontra novas possibilidades para gerar impacto social a partir das iniciativas, experiências e conhecimentos da região.

Participaram da conversa Roberto Galassi Amaral, coordenador dos cursos de pós-graduação em Gestão de Projetos Sociais no Território; Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade do Centro Universitário Senac e Dirce Koga, assistente social com pós-doutorado em Serviço Social pela PUC-SP e autora dos livros Medidas de Cidades - entre territórios de vida e territórios vividos e São Paulo: sentidos territoriais e políticas sociais, em coautoria com Aldaíza Sposati.

"A rotina institucional em que estamos inseridos como trabalhadores, gestores, técnicos, assessores, acaba nos distanciando da realidade. O desafio é saber como incluir nessa agenda: o contexto, o território, o lugar onde estamos atuando", analisa a pesquisadora. Dirce ainda avalia que é fundamental esse profissional se deslocar para a prática do território. Não é tarefa simples, já que podem ter pressões dentro das instituições.

Ela exemplificou com o Programa Mais Médicos: "Uma fala recorrente da população era que, pela primeira vez, um doutor visitava sua casa e tomava café. Acho que é isso, um trabalhador ir até esse cotidiano. Essa é a chave do trabalho social e precisamos aprender a fazer isso. Aparentemente simples, mas exige alguns esforços".

E como escapar de uma visão preconceituosa? Dirce ressalta dois fenômenos do cotidiano: colonização e escravidão. "Nós somos uma sociedade que carrega essa herança", esclarece. Por mais que atue próximo do território e ser pertencente de camadas populares, esse profissional precisa evitar o modo de atuar verticalizado e até autoritário, que não permite a escuta nem a participação das pessoas da localidade. Esses mecanismos estão ganhando força pelo histórico e momento em que vivemos hoje.

O professor Galassi questiona como conhecer e fortalecer o conhecimento e saberes produzidos nas periferias. Dirce enfatiza que a periferia está cada vez mais no centro dos debates. Nesse sentindo, ressalta a condição dos territórios ribeirinhos, que têm outra forma de vida, e as terras indígenas, onde se vê semanalmente denúncias de extermínio das populações indígenas, como locais que ocupam a centralidade das discussões dos profissionais de trabalho social, que precisam reconhecer a potencialidade desses movimentos e aprender com eles. 

Outro movimento sugerido pela assistente social foi a descolonização: "Precisamos reconhecer outros saberes não produzidos nas academias nem nos trabalhos técnicos". Eles não são os únicos saberes, mas são igualmente saberes, explica. Para isso, ela reforça a necessidade de chamar atenção sobre isso nas cidades, com práticas e experiências de valores. "Estamos vendo hoje em dia os jovens de periferias chegaram até as universidades, não somente para ingressar ao mercado de trabalho, mas conseguem produzir conhecimento sobre esses locais e se tornam intelectuais das periferias". 

Os professores ainda pontuam a necessidade de os diagnósticos socioterritoriais serem mais participativos, deixando o caráter de documento técnico para integrar de fato aos planos para considerar as desigualdades das cidades por menores que sejam. Ela exemplifica um estudo de doutorado de uma assistente social sobre a zona sul de São Paulo, em que ela incluiu as benzedeiras do território. "Tem uma importância incluir essas pessoas para quem vive esse cotidiano junto com as igrejas, uma relação de proteção, de aconchego, de acolhimento". Dessa forma, a ideia de planejamento socioterritorial não fica somente como uma obrigação burocrática: "Os saraus, os slams, as cooperativas, os coletivos que se juntam em torno não somente de necessidades comuns, mas de um desejo comum, precisamos conhecer melhor essas ações". 

E como traduzir essas vivências e experiências em dados? Dirce sugere aprender a linguagem utilizada pelos vários grupos que coexistem nas periferias, buscando compreender essas interações. Esse é um grande desafio aos profissionais do trabalho social. 

Galassi comenta sobre o
Mapa da Desigualdade de 2019, lançado neste mês com dados de 96 distritos de São Paulo, 53 indicadores nas várias áreas da administração pública e mostra as taxas de desigualtômetro, a diferença entre a melhor e a pior região para cada um dos itens avaliados. 

Dirce avalia esse tipo de estudo e metodologia fundamentais e chama atenção para o fenômeno das desigualdades entre os territórios. A pesquisadora ainda observa que a desigualdade é muito concreta quando olhamos justamente para a forma como as cidades estão organizadas e se colocam nesse cenário. As metodologias usadas nesses estudos replicam esse modelo, sem mostrar o que a população local cria e quer.

"A questão cultural e a forma como os mapas têm de medir a presença de equipamentos e espaços comunitários não conseguem capturar esses coletivos presentes: de poesia, de música, de raps e outros ligados à etnia. Essas manifestações dariam outro tipo de mapa e não são consideradas nos nossos levantamentos. Nesse sentindo, precisamos alargar nossas fronteiras", defende. 


Assista na íntegra o Webinar Senac: Projetos Sociais nos Territórios: Inovações e Impactos.

Tags: conhecimento territorial, gestão de projetos sociais, projetos sociais nos territórios, saber local, trabalhador social


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