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29/11/2017 10h12min

“A ideia de que somos múltiplos está mudando o mundo”

Afirmação da advogada Marcia Rocha fortalece a necessidade de conscientização quanto à diversidade.

Sala, com várias pessoas sentadas, em círculo

Encontro promove debate sobre o tema empregabilidade trans

“Bom dia, com licença. Eu me chamo Caio”. Com essa abordagem, os participantes são recebidos na sala, no Senac Aclimação, preparada para um debate sobre empregabilidade.

Todos o cumprimentam com naturalidade. Na sequência, após segundos de silêncio, Caio tirava do bolso o RG e o entrega. Alguns pegam o documento, com olhares desconcertantes o devolvem, sem qualquer comentário. Outros simulam espontaneidade e mencionam a idade (ele tem 25 anos). Essa performance mostra a reação da sociedade diante da transexualidade. Já que o RG traz a identidade de Jade.


No centro do salão, com todos os olhares voltados para ele, Caio diz: “A gente chega, bate nas portas para conseguir emprego. Estendo a minha mão, visto minhas melhores roupas, sou gentil, sou cortês, me esforço. Eles me negam. Interdição”.


Pessoas gesticulam concordância, demonstram indignação e compartilham a angústia de falar sobre o assunto. Por isso, esse encontro propõe problematizar a sistemática de transexuais e a sua inclusão no mercado de trabalho, sendo que o trabalho é um direito humano. A sociedade está avançando em relação à diversidade. Mas, qual o cenário da empregabilidade para essas pessoas diversas?


O historiador Paulo Mello, idealizador do TransInformativo, menciona pesquisa realizada com 10 mil empregadores no país. São 20% companhias que atuam no Brasil se recusam a contratar homossexuais, 7% não contratariam um LGBT e 11% só considerariam a contratação caso o candidato jamais pudesse chegar a um cargo de chefia.


E determinada em ajudar a mudar essa realidade, Márcia Rocha, advogada integrante da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/SP, desenvolveu o projeto Transempregos. “Como uma das finalidades da Abrat (Associação Brasileira de Transgêneros) era empregabilidade das pessoas trans, pensamos nesse projeto, que começou com um site, criado por Daniela Andrade, que oferece vagas para diversos segmentos de mercado. Tem vagas para estágios, empregos temporários e de período integral”. Além do site, o projeto busca a conscientização de empresas sobre essa questão.


Ela conta que, na sequência, um jornal de grande circulação publicou uma matéria a respeito. Em seguida, em 2015, houve mais adesão das empresas. “Hoje já são 39 empresas que assinaram um compromisso de não descriminar e contratar trans”, conta Marcia. “O volume vem sendo muito grande. Às vezes, até brinco com as empresas e digo: corre que daqui a pouco não terá mais trans desempregados”.


O foco desse projeto é “se dê oportunidade igual. Não é preferência. Não quero que contrate um trans. Quero que contate um ser humano competente. E as empresas estão percebendo que discriminar é ‘dar tiro no pé’”, observa Marcia. “Somos humanos, somos diversos, somos diferentes com direitos iguais. (Deveríamos ter esses direitos)”.


Muitas das vagas, afirma Marcia, são para cargos técnicos. Hoje, há trans coordenadores de multinacional, advogadas, em todas as áreas. “A ideia de que nós somos múltiplos é que está mudando o mundo”.


Um exemplo de comportamento organizacional nessa linha é a Chilli Beans. Bárbara Marrara, psicóloga e coordenadora de RH dessa empresa, conta que tudo já começou com o valor da liberdade de expressão, há 20 anos. “O dono estabeleceu esse valor como o principal da empresa”.


Para ela, a essência é o respeito às pessoas em geral. “Não temos política de recrutamento de diversidade. Isso porque é inerente à empresa. É natural para nós. Todos são contratados pela competência”, conta.


A técnica em guia de turismo Eloiza Cuzziol diz que já ouviu falar na possibilidade de criação da política de cotas para trans. “Mas, penso quer haveria o risco de a contratação ser feita para cumprir a cota e não pela capacidade da pessoa. Ela poderia ser encarregada de uma função qualquer, sem avaliar a habilidade ou o estudo”.


Barbara explica que, na Chilli, todos passam pelo mesmo processo, com os mesmos critérios, e são cobrados da mesma maneira. E se não der certo, ele será desligado como qualquer outro funcionário. “Se não tratarmos dessa forma, a gente não está ajudando ninguém em nada”.


Ela diz que como todos já conhecem a abertura à diversidade no quadro de funcionários da Chilli, a maioria já se sente à vontade para se candidatar às vagas. “O pensamento de barrar é inviável para nós. E não usamos isso como marketing, mas, sim porque somos uma empresa que respeita pessoas”.


“Lá, o meu papel é também o de fazer uma vigilância. Verificar se está havendo algum tipo de preconceito com o contratado nesse perfil trans. Felizmente, a gente nunca teve uma reclamação de assédio por questão de gênero”, comenta.


Paulo, que também é educador social pelo Senac, lembra, nesse momento, que é necessário entender a diferença entre integrar e incluir. Quando se integra uma pessoa na empresa, dá-se o crachá, mostra-se os espaços comuns, como banheiro, refeitório. Quando se inclui, a empresa se propõe a mexer na estrutura, se necessário, e na cultura, para inseri-la na sua equipe. “Muitas empresas apenas integram”.


Nesse ponto, Barbara compartilha sua experiência: “Quando a pessoa chega, o documento passa pela admissão, a gente chama pelo nome que ela se apresenta, se reconhece, pelo nome que ela escolheu para ela. Tratar com respeito e deixá-la se expressar como quiser”.


Paulo concorda e diz que tudo pode começar a mudar, a partir do momento em que os RHs se dispuserem a debater sobre esse tema e a colocar em prática esse diálogo em direção à mudança de cultura da organização. “Conscientização e sensibilidade são fundamentais”.


“Está sendo necessário repensar uma série de valores”, argumenta Marcia. “A lei sozinha não basta. É necessário de mudança de valores sociais. Cresci no regime militar. Vocês não sabem como esse debate aqui seria impossível naquela época! Não era aceitável discutir ideias, se expor. E isso tudo mudou”.


Para quem procura emprego, o conselho da Marcia é: “se prepare, seja bom, se dedique, lute, mostre que você é bom, estude. Se não você vai ser devorado”.


Leia também Especialistas debatem temas de cultura de paz no Senac Itaquera e Educação emocional: elementos para uma vida saudável, matérias publicadas pelo Portal Setor3, sobre ações que compõem o evento Redes Sociais & Cultura de Paz



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Tags: Senac Aclimação, desemprego, desenvolvimento social, diversidade sexual, empregabilidade, identidade de gêneros, identificação sexual, mercado de trabalho brasileiro, preconceito, transexuais, travesti ou transexual


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