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10/03/2017 10h23min

“Talvez a única saída para nós seja a arte”

Confira entrevista em que Vinicius Del Ry Menezes, docente do Senac Largo Treze, fala sobre o texto para o teatro, empatia com a plateia e a importância de uma boa história no palco.

“A humanidade até hoje não conseguiu dar uma definição única, exata e universal para a arte. Ainda bem. Pois, arte é isso. É algo que cresce junto com a humanidade, que se desenvolve com o elemento humano. O homem precisa de equilíbrio entre o racional e o emocional, entre o físico e o espiritual”, afirma Vinicius Del Ry Menezes, docente do Senac Largo Treze.

Para ele, há muitas formas de as pessoas atingirem esse equilíbrio: terapias, religiões, filosofias. E uma das formas é a arte. A arte ajuda nessa relação do homem com o mundo, entre o interior e o exterior. Mas o homem não é um ser estático. É um ser em constante movimento e crescimento. O crescimento gera desequilíbrio. E esse crescimento, às vezes, é gerado pela própria arte, o que parece ser contraditório. “O que quero dizer é que a arte ou faz crescer, e para isso ela vai gerar um desequilíbrio, um questionamento; ou ajuda a se equilibrar na sua relação com o mundo. Arte é vida. E vivemos em uma comunidade”.

Vinicius explica que as relações públicas, em sociedade, são regidas pela política, mas também podem ser regidas pela arte. Ele sente que o aspecto político parece ter se perdido em sua essência. “Por isso, a sociedade está do jeito que está. Talvez a única saída para nós seja a arte. E como uma das formas artísticas, o teatro pode e deve ajudar a nossa comunidade”.

Segundo a SPTuris, há, em média, 100 espetáculos teatrais exibidos por semana na cidade de São Paulo. Então, são cerca de 600 espetáculos diferentes por ano. Isso sem contar os pequenos grupos teatrais espalhados pela cidade, aqueles pequenos, ainda não profissionais, que não entram nas estatísticas oficiais. Por isso, o docente vê que existe uma alta demanda pelo dramaturgo no mercado.

Mas, qual o papel desse profissional? Vinicius fala um pouco sobre o dramaturgo, o texto para o teatro, o público e dá dicas para quem está começando.

Atualmente, qual o papel do dramaturgo?
Se pensarmos a dramaturgia apenas como o ato de escrever um texto que será representado por atores, não importando se essa representação será no teatro, cinema ou TV, em sua essência, nada mudou. Mas, se formos além dessa definição, hoje, o dramaturgo tem um papel muito mais profundo, pois além de criar uma história e desenvolvê-la dentro de uma estrutura, ele pode e deve propor novas formas de representá-la, não apenas com rupturas estéticas, mas também com rupturas tecnológicas. Ou seja, o dramaturgo precisa, mais que nunca, na história do teatro, encontrar uma nova forma de contar a história que ele quer contar.

Como é elaborar um texto e transportá-lo para os palcos?
É um trabalho em conjunto com o diretor e os atores. Ao escrever, o dramaturgo cria a base, a coluna principal da peça. Se formos comparar com a arquitetura, o dramaturgo é o responsável por construir a sala; o diretor e os atores são responsáveis por decorá-la. Quanto melhor for a disposição dessa construção, melhor será a sua decoração. A prova disso é que textos clássicos de mais de dois mil anos continuam sendo encenados ainda hoje por conta da construção sólida. Isso permite que diretores e atores decorem com a estética atual. O dramaturgo, hoje, precisa ver o diretor e os atores como grandes parceiros que darão vida àquilo que ele imaginou e escreveu. Isso inclui estar aberto a sugestões de melhoria no texto. 

Quais as principais características de um texto para o teatro?
A principal característica é ser um texto escrito que será interpretado. Então, não é um texto em que o fim é em si mesmo. O fim é o espetáculo. E para escrever um espetáculo, o dramaturgo precisa criar uma boa história, contá-la de forma envolvente, criar personagens reais e fazê-los interagir entre si por meio do conflito, da ação e dos diálogos. Enfim, é escrever uma história em que a emoção estará em tempo real aos olhos do expectador.

Como inovar nesse tipo de texto?
Pode-se inovar em relação a temas, pois alguns ainda são tabus, como o incesto. Pode-se inovar em como contar uma história antiga de uma forma nova, como, por exemplo, transferir toda a ação de Hamlet para os dias atuais. Pode-se inovar na produção trazendo tecnologias novas para o palco ou inovar na interação com outros meios, como o cinema, a música, a internet, a literatura e jogos digitais.

O teatro clássico e o teatro experimental têm estilos diferentes. Que dicas podem ajudar o dramaturgo a transitar entre os dois?
Ter clareza sobre o que se quer fazer. Quer escrever uma história em termos clássicos, escreva em termos clássicos. Quer experimentar, ouse. Não fique com medo de ir para um dos lados. Assuma um lado e vá.

Como é ‘vender’ a sua história?
Uma história boa se ‘vende’ sozinha, pelo menos para um bom diretor e bons atores com sensibilidade para reconhecê-la. Mas, ao pensarmos em termos de produção e financiamento, é importante e necessário conhecer um pouco da área de negócios, de produção e leis de incentivo e fomento.

Quais características são importantes para um dramaturgo se destacar no mercado?
Ter um profundo conhecimento das técnicas dramatúrgicas, ser criativo e ousado, não temer críticas negativas e saber se relacionar bem com a equipe. Um dramaturgo intransigente e egocêntrico pode ser um excelente artista, mas dificilmente conseguirá levar um espetáculo até a produção final.

Fale um pouco da evolução do papel do profissional da dramaturgia.
Um bom dramaturgo põe no palco a vida atual como ela é pela sua ótica individual como artista. A evolução nesse período é mais uma evolução da sociedade que do dramaturgo em si. Mas, se considerarmos em termos técnicos, hoje é possível explorarmos a tecnologia, novas mídias, novas estéticas que há 10 anos era impossível. Por exemplo, hoje é possível escrever uma peça em que o público vote em tempo real, por smartphone, qual dos finais ela quer ver.


O público que vai ao teatro hoje é o mesmo que ia há 10 anos? O que ele procura?
A cada dez anos temos uma geração nova. Isso impacta em todas as áreas, inclusive nas artes, pois a criança que nasce hoje será um adulto com pensamentos e ações diferentes da atual geração. Quando o dramaturgo pensa num espetáculo, ele deve pensar para qual público ele está escrevendo. Há 10 anos, um espetáculo infantil já tinha dificuldade de manter a criança sentada e prestando atenção. Hoje, é quase impossível. Se deixar, a criança participa do espetáculo junto. O que é muito interessante e abre novas possibilidades artísticas. 

Um teatro adulto há 10 anos não tinha tanta diversidade de temas e de provocações como temos hoje. Atualmente, o público está mais aberto e receptivo a determinados temas, mas também mais disperso e mais consumista. Consumista no sentido de ir ver a peça teatral só por ver, sem se envolver, sem pensar no tema, sem tentar atingir a essência da história, a ponto de logo depois nem lembrar dos detalhes.

Como o dramaturgo observa a empatia da plateia? 
Se o público corresponde emocionalmente com a intenção que ele tinha na cena ou na peça. Quero dizer, se era para o público rir naquela cena e ele riu, houve empatia. Se era para chorar e chorou, houve empatia. Se era para o público sair desolado da peça, e no final ninguém conversa ao sair, houve empatia. 

E quando o público não se manifesta? 
Talvez a intenção era que não houvesse empatia mesmo. O mágico no teatro é isso. Provocar emoções no público. Emoções que ele não encontraria em outro lugar. Às vezes, o que se quer é dar um tapa na cara da sociedade e mostrar a sua hipocrisia. Então, não necessariamente é ruim o público não sentir empatia, não aceitar, questionar, vaiar. 

Em algumas ocasiões, isso mostra como a peça está avançada para o público atual. Muitos dramaturgos não foram compreendidos em sua época e hoje são revisitados. Marco Nanini estreia em março, no Rio de Janeiro, a peça Ubu Rei escrita pelo francês Alfred Jarry em 1888 e encenada pela primeira vez em 1896, no Teatro do Louvre, em Paris - peça essa em que na sua estreia foi um fracasso, foi vaiada, incompreendida. Hoje, é mais atual que nunca.

Quem tem afinidade com esse cenário, o que deve fazer? 
Para ingressar na área, pode-se fazer uma faculdade em artes cênicas, cursos técnicos ou livres de teatro e de dramaturgia, participar de coletivos ou grupos de teatro amadores.

E como se manter atualizado?
Para se manter atualizado não há outro caminho senão assistir a muitas peças. Desde aos grandes musicais da Broadway, que estão cada vez mais comuns em São Paulo, até a apresentações amadoras de grupos ainda não profissionalizados ou grupos de rua. Quanto mais referências tiver, melhor.

Quais recomendações você pode oferecer a quem está começando?
A principal dificuldade é escrever. A maior alegria é escrever. Há uma angústia toda vez que se inicia a escrita de uma peça, mas há uma alegria indescritível ao terminá-la. A principal dica é escrever sempre. Escreva, escreva, escreva. Só escrevendo é que o texto fica cada vez mais claro. Simples e, ainda assim, profundo em significados. Uma última dica: saiba ouvir críticas, pois muitas delas vêm com ideias de melhorias. 

A Mostra Internacional de Teatro esteve em São Paulo, recentemente. Fale um pouco.
Eventos como esse traz a oportunidade de ampliar conhecimentos e conhecer coisas novas. O que acho mais interessante é a divisão em três eixos. Um foi sobre linguagens e formas de aproximação entre teatro, cinema e literatura, ou seja, busca investigar novas maneiras de contar uma história no palco. O outro eixo era muito ligado ao tema, pois discute as questões raciais, em especial o negro e o racismo. E, por fim, o eixo que abordou o teatro documentário trazendo discussões políticas.

Na mostra houve debates sobre reflexões críticas dos espetáculos. De que forma o profissional desenvolve olhar crítico diante da arte?
O olhar crítico só se desenvolve a partir de debates, de questionamentos. Mas, só debate e questiona quem se envolve com a peça. Um público consumista apenas vê a história. Um público que se envolve vê além da história, busca o tema principal, tenta entender as entrelinhas, questiona se aquela realmente era a melhor forma para aquele tema, para aquela história. Para se ter esse nível de envolvimento é preciso tempo, dedicação, repertório, gosto pela arte.



Vinicius Del Ry Menezes* é pós-graduado em Cinema, Vídeo e Fotografia: Criação em Multimeios pela Universidade Anhembi-Morumbi, publicitário formado pela PUC-SP. Atuou no departamento de marketing da Editora Saraiva, trabalhou na REF Comunicação, onde atendeu a clientes como Decolar.com, PlayArt e Amor aos Pedaços. Foi produtor dos documentários Saúde Brasil, veiculados pela TV Cultura. Desde 2010, leciona nas áreas de comunicação e artes e design no Senac Largo Treze. 


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Tags: Senac Largo Treze, arte e dramaturgia, o que faz um dramaturgo, o teatro e o texto


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