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15/03/2017 16h30min

Pitty e Marcia Tiburi discutem feminismo contemporâneo

“O louco é que alguém ache que machismo e feminismo são a mesma coisa. Feminismo é a luta por direitos iguais e machismo é a supremacia de um gênero oprimindo outro. São duas coisas diferentes, mas tem muita confusão sobre isso”, enfatiza a cantora e compositora Pitty.

A roqueira baiana participou, em 15 de fevereiro, do evento Diálogos Contemporâneos conduzido pela filósofa Marcia Tiburi e promovido pelo Senac Lapa Scipião. Em parceria com Tiburi, ela buscou desconstruir mitos e preconceitos em relação ao assunto.

Com bom humor e sem papas na língua, Pitty apimentou o encontro ratificando que é defensora do movimento feminista e falando, entre outras coisas, sobre os tabus que assombram o tema, a demonização da palavra e a reação que tem diante de atitudes machistas.

Para começar, lamentou a visão equivocada que muitas pessoas têm sobre o feminismo. “Percebo que quando se fala nisso a gente ouve muita maluquice, como se fosse as mulheres querendo dominar os homens, que feministas não se depilam, que feministas não casam”, diz.

Esse tipo de pensamento, segundo ela, é consequência de um trabalho de construção social e de mito feito, desde os anos 60 até hoje, para demonizar a palavra feminismo. “Isso faz com que a maioria das pessoas não saiba o que o conceito realmente significa. Então, quando você fala parece que é um xingamento”, ironiza.

Tiburi completou dizendo que a história do feminismo nada mais é do que a história da luta contra a misoginia, ou seja, contra o ódio às mulheres.

“É uma luta por direitos. Não existe nenhuma luta por direitos que possa esquecer a questão de gênero até porque grande parte delas veio justamente das mulheres. Elas defenderam, primeiro, os direitos das próprias mulheres de estudar, de não ser morta, não ser espancada, maltratada ou estuprada, de não precisar casar”, ressalta a filósofa.

Ela esclareceu que o termo feminismo era utilizado, inicialmente, na medicina para falar de homens doentes que desenvolviam características femininas.

“Acho que pegou mal porque a palavra começou a ser usada no século 19 por Alexandre Dumas Filho, um jornalista conservador ao extremo, para desqualificar homens que defendiam os direitos das mulheres. Então, na história, os homens é que foram, primeiro, chamados de feministas”, contou Tiburi.

Feminismo dialógico
Após essa contextualização, Pitty provoca: “Mas, como a gente descontrói essa demonização da palavra feminismo?”

Marcia Tiburi defende que entender as particularidades a partir do diálogo pode ser o caminho para atualizar o movimento e derrubar o preconceito.

“Cada pessoa, dentro da sua circunstância, raça, experiência, situação, corporeidade, plasticidade, da sua história de vida e da sua narrativa vai ter uma experiência completamente diferente do que é ser mulher. Chamo isso de feminismo dialógico, que coloca as singularidades em cena”, justifica.

Por sua vez, Pitty destaca que não se pode construir um feminismo com base em uma única mulher porque existem feminismos diferentes. “O ser mulher para mim é diferente do ser mulher para uma que mora na periferia, para uma que é negra, para uma mulher que é gay”.

E completa: “Eu, hoje em dia, sou muito mais protegida que a maioria das mulheres. Então, não posso olhar só para a minha condição. Tenho que dar vazão à voz das outras que passam por diferentes situações senão a gente constrói um feminismo branco, elitista, heterossexual e que só atende a uma determinada parcela de mulheres”.

Sem cartilha
As diversas linhas ideológicas do movimento e a própria dificuldade em entender o conceito são alguns dos fatores que tornam o assunto polêmico.

Por ser tão amplo, único e pessoal, ele não tem cartilha, manual ou carteirinha que defina de forma clara e padronizada o que fazer, como agir ou classificar quem faz parte do movimento. Nesse contexto, segundo Pitty, cada pessoa pode encontrar um grupo de mulheres ou uma linha ideológica com quem se identifique.

“São muitas coisas para descobrir nisso. Muitos não gostam do meu feminismo porque sou aberta ao diálogo com os homens e acho que eles têm que participar, nunca protagonizar, até porque fazem parte da sociedade e a gente vive junto”, argumenta a cantora.

Ela conta que, em suas produções, o tema não aparece de forma consciente, apenas de maneira intuitiva. Isso porque só se deu conta de que era feminista há alguns anos.

“Não sabia disso quando comecei a compor. Então, hoje, olhando para algumas coisas que eu escrevia percebo que eram composições igualitárias e que falam sobre isso, mas eu não tinha conhecimento dessa nomenclatura. Me fez bem descobrir, é como sair do armário”, brinca.

Do digital para o analógico
Além de propor esse novo olhar, Pitty e Tiburi acreditam que tudo isso não pode ficar restrito ao discurso ou a comentários nas mídias digitais.

“Não basta levantar uma bandeira bonitinha para fazer uma gritaria na internet. A gente tem que sair do digital e ir para o analógico, fazer feminismo nas ruas. Não podemos confiar só no ato digital. Ele tem seu lugar, mas não pode ser substitutivo do ato concreto”, enfatiza Tiburi.

Para Pitty, a internet ampliou o debate sobre o assunto, mas é preciso cuidado para que não se torne um feminismo midiático ou empoderamento de fachada.

Reações ao machismo
Acostumada a levantar a bandeira do movimento em diferentes ocasiões, a artista precisou lidar com comentários preconceituosos e raivosos nas redes sociais.

Questionada pelo público do evento sobre isso, ela contou que, diante de ataques machistas, costuma reagir com atitudes feministas. Afinal, para ela, essas mensagens são tão absurdas que dão uma oportunidade incrível para mostrar como essa intolerância é ridícula.

Inteligência, sagacidade, bom humor e ironia são algumas das muitas ferramentas que Pitty usa para responder a esses ataques.

“Podemos construir uma retórica incrível, muito forte e poderosa. Temos essa força e esse poder. Precisamos nos preparar intelectualmente e emocionalmente porque é pesado. Mas, cabe a nós descontruir esse machismo e tantas outras coisas que fazem com que a gente acabe sofrendo como sociedade”, finaliza.

Diálogos Contemporâneos
O encontro entre Tiburi, Pitty e o público é resultado do projeto Diálogos Contemporâneos, idealizado pelo Senac Lapa Scipião, que busca estimular a troca de ideias e promover o pensamento moderno reunindo visões e opiniões de personalidades convidadas.

Ao final da ação, Tiburi reforçou que a proposta é importante porque as pessoas se constroem no diálogo.

“Viver é dialogar, é um grande processo de conversação. Acho que, nessa linha, conhecimento e arte se tornam outras coisas. Não é o efeito de uma competição, mas o processo de construção de si que é a construção coletiva, que é a construção da sociedade. Nesse sentido saio cheia de mundo”, conclui.

Na primeira edição, o evento contou com a participação da cantora, compositora, poeta, escritora, artista e ativista Karina Buhr.

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Tags: Diálogos Contemporâneos, Marcia Tiburi, Pitty, Senac Lapa Scipião, feminismo, machismo, preconceito


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