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11/10/2016 12h07min

Ricardo Boechat: ‘O jornalismo é uma profissão fascinante’

Âncora da rádio BandNews FM e do Jornal da Band falou dos desafios da carreira em talk show realizado pelo Senac Lapa Scipião.

“Não

“A ideia de ser chamado de âncora, que é diferente de apresentador, e querer carregar esse título com tudo o que ele representa, não é apenas limitar-se à leitura de um texto que precede um vídeo. Se for só isso, jamais imaginei ganhar tanto dinheiro fazendo algo que eu aprendi aos 4 anos de idade, que foi ler”, provoca o jornalista Ricardo Boechat.

O âncora da rádio BandNews FM e do Jornal da Band, transmitido pela TV Band, participou, em 14 de setembro, de um talk show conduzido pelo docente Anselmo Brandi e promovido pelo Senac Lapa Scipião em comemoração aos 20 anos da unidade. 

Na ocasião, compartilhou com o público sua trajetória profissional, sua opinião sobre desafios da profissão, furo jornalístico, linguagem e deu até conselhos para quem pretende iniciar na profissão.

Para começar, Boechat apresentou sua percepção sobre o telejornalismo brasileiro. Segundo ele, o atual padrão transforma o teleprompter (
equipamento acoplado às câmeras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo apresentador) no dono do jornalismo de televisão. “O que está ali escrito você lê, se parar de rodar você engasga, se não tiver ali escrito você não faz, não fala”, explica.

Saindo desse quadrado, o jornalista já abriu um guarda-chuva na bancada do Jornal da Band para brincar com a queda de um satélite e simulou uma ligação telefônica com a mãe para ironizar o desvio de verba pública.
“Não

Apesar de receber o Troféu Imprensa 2016 na categoria Melhor Apresentador de Telejornal, ele não considera as intervenções que faz uma renovação da linguagem no telejornalismo. “Não criei nada. Acho que é a tentativa inconsciente da dessacralização da bancada. Sou contra essa coisa de colocar o âncora olhando do alto para a humanidade”, justifica.

Ele acredita que, de certa forma, o Jornal da Band rompeu o modelo atual porque tem três apresentadores, um comentarista fixo e uma jornalista formada em meteorologia que faz parte da bancada. “É um jornal mais acidentado porque é mais pobre, tem mais problemas no ar e, portanto, improvisa mais. Não tem revolução nenhuma”, enfatiza.

Para o jornalista, ser âncora de telejornal exige riscos. “Como eu me preparei para isso? De jeito nenhum. Sendo rigorosamente o que sou. Exceto pelos palavrões que não falo no ar”, brinca.

Isso explica os comentários indignados e espontâneos que costuma fazer. “Eu reajo às notícias como quem está assistindo pela primeira vez. Aliás, muitas vezes, eu estou realmente assistindo àquela notícia pela primeira vez. Fico indignado, irritado e não redijo comentários, falo o que me vem”, revela.

Diminuindo distâncias
O jeito descontraído e o compromisso em responder as mensagens que recebe aproximam Boechat do público. Mas, ele destaca que isso não é uma estratégia de comunicação. 
“Não

“Não é um trabalho para me aproximar das pessoas, mas um esforço para não me distanciar delas. Entendo que a atividade de quem está na mídia de massa naturalmente faz com que o público te enxergue com uma distância física e hierárquica”, diz.

Isso acontece, segundo Boechat, porque a figura dos protagonistas do jornalismo, não só no Brasil, acaba sendo mais próxima da mística do ator, da celebridade, do que de alguém que, a rigor, tem que entender e interpretar os fatos do cotidiano mais rotineiro da população.

“Apenas procuro não me alterar em relação ao que eu sou. Não estabeleço uma censura ou uma barreira para essa aproximação e não vejo porque haveria de fazê-lo. A minha ideia é que essa aproximação, que é tecnológica e virtual, seja percebida como real”, esclarece.

Contudo, ele confessa que essa relação gera alguns percalços de natureza operacional. “Divulgo o meu número de telefone no ar e recebo muitas mensagens o tempo todo. Sou obsessivo compulsivo nesse negócio de responder. Como eu mesmo atendo meu telefone, estou permanentemente ameaçado de assassinato pela minha mulher, porque o bicho toca de madrugada do lado da cama”, brinca.

Na rádio, essa postura é ainda mais viável que na TV. “É possível se despojar ao máximo das prerrogativas e de status. Peguei hemorroidas, me ausentei por alguns dias e me perguntaram o porquê e eu contei. O que eu ia dizer?”, ironiza.

Furo jornalístico
Na mesma linha simples de pensamento, ele critica até a cultura do furo jornalístico. “É uma coisa que diz respeito à nossa vaidade. Tem informação que você pode dar com cinco minutos de antecedência, que é um furo, mas que não vai fazer diferença nenhuma para quem souber cinco minutos depois quando as agências divulgarem”, acredita.

Questionado pelo público sobre o que acha da imprensa brasileira, Boechat foi enfático: “está longe de preencher os meus sonhos como consumidor de notícias, longe de ser uma maravilha irrevogável. Tem muita proximidade com a classe política, tem pouca vocação investigativa. Mas, eu diria que se tivesse que escolher adversários para alvejar com um tambor de seis balas, que não tivesse refil, eu não gastaria nenhuma delas alvejando a imprensa brasileira”.

Conselhos
Por fim, um dos jovens que acompanhava atentamente o evento levantou a mão, contou que tem o sonho de ser jornalista e pediu conselhos a Boechat.

Contador de histórias, ele lembrou da resposta de Nelson Rodrigues, jornalista e grande nome da literatura brasileira, para o mesmo pedido durante entrevista ao jornalista e escritor Otto Lara Resende.
“Nelson disse: Envelheçam. Isso mostra um retrato 3x4 da figura do Nelson, mas traz também uma reflexão”, ressalta o âncora da Band.

Fazendo um panorama atual, ele explica que o jornalismo é uma profissão difícil no sentido mercadológico, pois tem menos chance de absorver mão-de-obra, tem um perfil salarial inicial bastante penoso e cargas horárias desumanas. “Dê adeus a feriados, aos fins de semana, adeus a um monte de coisas que atividades profissionais convencionais preservam e respeitam. Tem uma rotatividade gigantesca, muita demissão depois do ingresso na função”, afirma.

Outro aspecto desanimador, ressalta, é que a evolução na carreira é medida por décadas ou quinquênios. “Não me lembro de jornalista que tenha chegado a uma posição de grande destaque ainda jovem, especialmente na mídia impressa. Geralmente as conquistas vão vir com o passar do tempo numa estrada de longo horizonte”, reforça.
“Não

Por outro lado, ele mostra o que o motiva. “Tudo isso poderia desestimular alguém, mas vou dizer uma única coisa que se contrapõe a tudo isso e que, no meu entendimento, produz um resultado positivo: nessa profissão não se morre de tédio”.

E completa: “morre-se do coração, de angústia, de um monte de buracos existenciais. Mas, você vibrará, junto com essas aflições concretas 24 horas por dia, 365 dias por ano. Envelhecerá vivo e morrerá ativo”.

Enfim, ele declara seu amor ao jornalismo. “É uma profissão fascinante. Não falta assunto para um jornalista. Não falta matéria-prima para a reflexão, não falta vibração ou conexão com o tempo, com o dia de hoje e com o desafio do amanhã. Ela é dialética, é polêmica. Nada no mundo profissional me parece tão excitante e tão desafiador quanto essa atividade”.

Para encerrar, um último conselho: “não aspirem ao sucesso depois de amanhã, não aspirem ao avanço material e salarial daqui a dois meses. Não imaginem que as estatísticas são favoráveis na conquista do sucesso na evolução da carreira, mas sintam-se motivados por um sonho que, uma vez alcançado, é muito gratificante”.

Conheça um pouco da história desse profissional em: De vendedor de livros a âncora de jornal – a trajetória do jornalista Ricardo Boechat.

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comunicação social que o Senac Lapa Scipião oferece.

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Tags: Ricardo Boechat, Senac Lapa Scipião, comunicação social, jornalismo, rádio, telejornalismo


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